sexta-feira, outubro 28, 2011

Em breve, contos do novo livro

Em breve, publicarei contos do novo livro

domingo, setembro 25, 2011

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quinta-feira, julho 07, 2011

segunda-feira, julho 02, 2007

Conto Papel de bala

Vídeo do conto "papel de bala" narrado pelos amigos do Colégio Villa Lobos.

quinta-feira, junho 21, 2007

tem razão, mãe

Ela dizia saber futuro. Como se coisa que vem depois permitisse vir antes. Tempo é para todo mundo. O mesmo. Impiedoso. Não tinha jeito, toda vez que viajava, razão ou outra, adivinhava. Era sorte de idoso, morte. Era desastre de moça, bucho. Era travessura de menino, cacos valiosos. Menino não acreditava, “mãe não pode adivinhar tudo assim”.
Uma vez foi Dona Zezé, empregada de muito tempo da casa, agora isolada num casebre na rua de trás, velha ficou, morreu. Viagem de mãe era pra visitar Flor, filha adotada, nunca mais vista, acidentada em cidade longe. Nem soube do fato, distante que estava. Tardou um tempo, meninada da casa anuncia: “mãe chegou”. Correria, alegria na casa. Mãe trouxe cocada da mãe verdadeira de Flor, cocada vendida na rua. Gosto ardido de coco já passado. Contar novidade fazia parte: “Mãe, Dona Zezé morreu”. E ela, como sempre: “Oh, Toinho, pois eu no ônibus fechava o olho e via Dona Zezé morta, parecia que tava adivinhando”. Menino se irritava: “Se adivinhava, por que não contou antes?” Menino queria que mãe desafiasse, então, o tempo. Mas nada dizia. Desconfiado. Só isso.
Outra vez, visitar Pai, longe, doente: “Seu Pai precisa de mim, aposentado por invalidez”. A cidade grande ficava mesmo longe, ausências com essa razão eram demoradas. Menino nesses tempos fazia a comida para a casa. Tempo bom. Só a meninada da casa e Pai Véi e Mãe Véa. Permitido até fazer cozinhado no quintal, sem Pai e Mãe. Feijão quase cru, na panela de barro. Tardava, o anúncio de novo: “Mãe chegou”. Correria, alegria na casa. Lembrança do Pai, história pra contar, existia amor. Mas contar novidade fazia parte: “Mãe, lembra de Nega de Dona Coló? Pegou bucho de Naldinho”. Ela, sempre: “Oh, Toinho, pois eu no ônibus fechava o olho e via Nega barriguda, parecia que tava adivinhando”. A irritação tomava o menino: “Mãe quer adivinhar desse jeito, coisa sem graça, se adivinhava, por que não contou antes?” Indagação eterna na cabeça do menino. Mas Mãe não pode mentir.
Menino impacientou-se. Não haveria outra vez. Desmascarar a Mãe. Isso seria bom. Por que Mãe não pode estar errada? Idéia perversa toma conta de menino. Era esperar. Viagem nova chega.
Tardou o motivo, menino quase esqueceu. Mas estava a Mãe viajando outra vez, talvez para visitar o Pai. Viagem curta, pouco tempo dessa vez. Era fim de tarde, Menino brincava com o mico, o terceiro. Primeiro morreu engolido por um gato da vizinha, briga eterna nas famílias, andar na rua, nem passar na calçada uma da outra, porque o gato comeu o mico. Segundo afogou-se na caixa d’água da casa, água pra tudo. Mas estava o menino brincando com o mico, o terceiro, deitado na cama, anúncio como de costume: “Mãe chegou”. Menino não tardou a pensar idéia perversa. Testar a Mãe. Medo era grande, chegava palpitar coração. Menino sentia entrar em terreno novo, desconhecido. Queria entrar. Não ia recuar. O plano: “Mãe vai chegar. Vou dizer a ela que o mico morreu.” Menino aceitou mentir, uma mentira bem contada, necessária, prova definitiva. Era esperar Mãe dizer “parecia que tava adivinhando”.
Fato foi que Mãe chegou e trouxe alegria para a casa. Meninada fuçando tudo. O menino deixa o quarto, deixa o mico lá, brincando, cara miúda, sorridente sem motivo. Já na sala vê a mãe. Sem abraço, dessa vez. “Mãe, notícia triste, o mico morreu”. Não falhou: “Oh, Toinho, fala isso não, pois no ônibus, fechava o olho, via o mico morto na tua mão”. Menino murcha. Acreditava, no fundo, que Mãe era verdadeira. Mas a prova, negar não, não podia. “Oh, Mãe, vida inteira sempre mentira, pois vem cá no quarto pra senhora ver”. Menino traz Mãe pelo braço. Pega o mico ainda quentinho: “Olha aqui, Mãe, a prova, nega não”. Termina de falar olha pro mico, na mão, morto.

mágoa de flor

Para Reinaldo Pamponet
ou para quem inventou o sonho,
que inventa a gente


Um dia a gente nasce. Simplesmente nasce. Vem ao mundo, brota, desemboca. Antes há um preparo, há uma mãe, um pai, desejos, há um querer. E a verdade é que a mãe queria uma flor. De qualquer cor. Nem importava a flor, mas tinha que ser flor. “É um menino”. Voz esperada, sentença contrária, fora da vontade. A flor não veio, não brotou. “A flor nasceu de mim, porque não fui suficiente”. A menina Flor foi nascida na casa, implantada, porque menino Mandu não nasceu flor. “Mas foi Pai quem trouxe”. Não quis encarar desejo não satisfeito, nem esperou muito. Flor chegou em casa depois de um mês, depois da mãe chorar o pedido não atendido pelo ventre.
Flor cresceu com o menino, lado a lado, peito a peito. “Flor era gulosa, tomou meu peito”. Mãe ficou com Flor, amamentou, deu a vida. Cesaltina, “só nome ficou”, foi a ama de leite do outro, do menino Mandu. “Liga não, Mandu, a coitadinha veio parecendo um monstrinho, fraca que era, cheia de ferida, corpo franzino”. Flor foi a flor mais bem cuidada da casa e de todas as casas perto da casa, ornada, babados cintura abaixo e muita fita, tudo combinado, cheio de arremate. Era coisa bonita mesmo. Era quase a boneca de brincadeira da mãe. Mas Flor nem ligava. Gostava mesmo era de brincar com o menino. Menino aceitava. Menino adotou. Opção. Jogo permitido.
O menino não podia ser flor, mas tentava, rodopiava, brincava as brincadeiras mais secretas. Foi amigo de todas as bonecas. Menino tinha até medo de crescer. Mas o menino estudou, Flor saiu da escola. Menino às vezes se separava de Flor. Às vezes era bom. Havia ódio. Outras ruim, amor.
Cresceram assim. Flor e Mandu. Branco e Preta, mas quase gêmeos. Estranhamente ligados, chegava incomodar. A boneca da mãe deixava de ser boneca. Diferente das outras, não havia mais vestidos, babados, arremates. Flor desabrocha. Mãe perde o gosto. Sentimento todo diferente nasce na casa. “Pra onde foi? Pra onde foi o amor? Mas por que Mãe apressa a morte?” Pra o menino Flor podia durar tempo sem fim. Flor nasceu do menino. E a Mãe não precisa mais de Flor.
Para o menino uma viagem arranjada. Parecia até presente escolhido, pensado, quase traz felicidade. Menino se arruma, sem escolher muito. “Flor, vem com Mandu!”, chamava. “Pode não”, Mãe diz. O menino vai, sem nem saber o que é ir. A viagem. A primeira, nunca outra. Menino bem que merecia. De qualquer forma, a viagem.
Destino desconhecido, viagem nem foi muito sentida. Levou o menino a tia, pouco falante, pra dentro, com vergonha de olhar pro menino. Palavra pouca, viagem sem passeio, sem muita explicação.
Nada muito interessante, a não ser conhecer a sempre-viva, flor teimosa, e o rosa arroxeado das buganvílias que imperavam e cobriam os telhados da cidade desconhecida. Não demorou, menino se apressa, quer voltar. Um silêncio barulhento, incômodo, parecia alertar o menino. “Por que tanto cochicho?”. Menino pressentia: “Mãe vai devolver Flor”.
O menino volta pra casa. Viagem longa, melhor não ter ido. Agüentar a demora e o medo da verdade, incomodava tudo. Tudo era só pensamento, de todo jeito, desarrumado: chegar em casa e conferir. Perguntar não podia. E se chegar muito tarde? E se a casa estiver dormindo? Era muito se, se demais para agüentar. Dormiu fundo, esquecido, como quem prefere adiar a dor.
O menino chega em casa e corre para a cama da mãe. “Que alívio, Flor continua”. Estava coberta, era frio o tempo, na cama da mãe. Dorme feliz, ainda cansado. Era só esperar amanhecer.
Dia amanheceu chuvoso, trovejava forte e os pingos da chuva, finos depois da peneira do telhado, acordam o Menino. Era tudo ainda tão escuro que parecia noite. “Flor não veio acordar Mandu”. Sem pergunta sobre a viagem. Silêncio. O menino começa a adivinhar, roda a casa, vira tudo. “Que foi, Menino, chegou agoniado, vem tomar o café” – a mãe chamava como quem busca uma aproximação desajeitada. O menino arrisca a pergunta que rascunhou toda a viagem: “Mãe, cadê Flor?”, “Tá aqui mais não.” Só isso, sem mais nada. Tão seca quanto a bolacha que acabara de enfiar na boca.
Na cama da Mãe dormia a empregada, depois que o Pai morreu. Menino só lembrou de ir pro quintal. Perto do monturo, os desenhos, no muro velho, especado. Ainda tentou, sem muita graça, recobrir com o dedo a linha já quase apagada de cada figura rabiscada. “Mãe devolveu Flor, tal como a trouxe, sem autorização”. Mas menino não compreendia, não se devolvem flores. Mas Flor se foi e o mundo era grande para o menino começar a procurar.

terça-feira, junho 19, 2007

Prefácio de Lígia Telles para o livro

Prefácio


Numa primeira incursão ficcional que se permite mostrar, concorrendo ao Prêmio Braskem Literatura 2006, surge José Amarante com seu volume de contos ainda em flor (assim mesmo, iniciado em minúscula). Vitorioso, traz ao público a possibilidade da leitura. Para mim, a de prefaciá-lo. Converto-me então, mesmo que estrategicamente, em sua primeira leitora, a quem cabe a tarefa de mediar a leitura de outros que, dilatando o tempo de espera do ingresso à escrita premiada, aceitam passar pelo ritual do prefácio.

Na verdade, sou a terceira leitora. O primeiro, o próprio autor, no texto de apresentação palavra primeira, pouca, generosamente põe um mapa nas mãos do leitor: o espaço onde se faz saber de um dos traços (a meu ver, vigoroso) dos catorze contos que compõem o volume ainda em flor: a tendência em fazerem-se cantos, lirismo a atravessá-los, arrastando-os da seqüência puramente narrativa, que costura dados, fatos, acontecidos, e transforma-os em sentimentos, em cicatrizes fixadas na carne, na matéria da escrita, nesse instantâneo eternizado que se diz marca de um estilo lírico.

Em seguida, em forma de poema (Bala perdida), a construir um espaço de intervalo na apresentação, uma amiga traz sua experiência de leitora - uma das primeiras, conforme declara Amarante. Não será esta a confirmação da matéria poética que logo se destacou na minha incursão inicial pelos contos? Com um título, de certa forma, enigmático, que nos leva, premidos pelos acontecimentos e notícias do cotidiano, a antecipadamente querer decodificá-lo sob o signo da violência, logo somos impelidos em direção contrária, a da recuperação do solo da infância, do qual sempre brotarão desejos, perdas, recordações e saudade, matéria poética que assegura a possibilidade de sua escrita. A propósito de alguma dessas perdas e dores, leiam o segundo conto - papel de bala - e tudo ficará mais claro. Aqui, é de desejo que estou falando.

Alonguei-me propositalmente a falar dos textos prévios, reservando para o leitor o prazer de saborear os contos de José Amarante sem tanta mediação, fazendo-me então desnecessária, e franqueando largamente o espaço de leitura. Agora, já percorrendo a seqüência dos contos, defronto-me com vivências de menino, de filho, do lugar entre os irmãos, do imponderável que assusta, da descoberta do sexo, da descoberta da morte, de lugares remotos, com seu ritmo, sua rotina distante daquela dos centros urbanos, dos tipos humanos mais visíveis nesses lugares, tão peculiares, tão outros sempre mesmos nas cidadezinhas por aí afora, de meninos e velhos, de mães e de filhos, de gente esquisita, de gente diferente para a percepção de um mesmo narrador em todos os contos, sempre o menino que registrou, que guardou para si as vivências, percepções e sentimentos, deles fazendo a matéria de sua ficção futura, nunca em antagonismo com a realidade.

Mas existe ainda o escritor José Amarante, que não se pode desvincular do seu repertório de leitor. E eis que, no conto a fossa, reencontro-me com uma galinha-quase-almoço em fuga, quem sabe, a mesma que fugira de um conto de Clarice Lispector e aqui tornara-se outra? E as recorrentes sensações de que, de repente, nos depararíamos com personagens de Guimarães Rosa, sensações talvez provenientes de momentos de uma dicção que nos remete àquele escritor? Entretanto, sem dúvida, é de Amarante que se trata: de um escritor de narrativas leves e ágeis, saltando economicamente pelos entremeios dos acontecimentos e, concentrando nas indispensáveis palavras o sumo do que não pode prescindir de dizer, delas fazendo a sua ficção.

Vamos, então, aos contos!

Salvador, novembro de 2006.

Lígia Telles

Lígia Telles é professora doutora em
Teoria da Literatura da Universidade Federal da Bahia